Segunda Parte, Capítulo 29.

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Lolita. A evocação de seu nome ainda hoje faria Humbert rodopiar na sua tumba. A marginal e, por conseguinte, irremediavelmente veemente história de amor (e inerente ruína), entre Humbert Humbert, intelectual europeu de meia-idade, e Dolores Haze (Lolita), sua enteada de rubros doze anos, é tecida e publicada por Vladimir Nabokov, em 1955. Escandalizou a sociedade da época e, décadas volvidas, permanece inquietante.

Numa confissão de violenta sinceridade e graciosa melancolia, Humbert explora a magnética e suja atração que empreende por Lolita, inicialmente, apenas filha da sua senhoria viúva, Charlotte Haze – com quem casa para conservar a sua proximidade da menina. Após a morte da fatigante mãe, Humbert e Lolita embarcam numa viagem pelos Estados Unidos, pela promiscuidade dos frívolos motéis e das cidades gastas e soturnas, em que as apaixonadas investidas do professor são levianamente aceites pela jovem, que mergulha num estado cada vez mais sombrio. O posterior misterioso desaparecimento de Lolita causa infinita angústia a Humbert que, anos mais tarde, encontra o homem responsável por tal infortúnio e o mata.

A concupiscência por Lolita não é, todavia, inteiramente nova para o professor. Humbert foi, desde cedo, atormentado pela atração por jovens meninas – “ninfitas”, como lhes chama. Numa tortuosa palpação do passado, disseca o seu primeiro encontro, com a pequena Annabel, quando ambos partilhavam cândidos treze anos. A impossibilidade de finalizar a êxtase deste romance acutila-lhe permanentemente o espírito. Contudo, a incapacidade de responder à palpitante questão – qual a origem destes impulsos? – jaze solteira no espírito do próprio Humbert e assim se mantém no nosso, mesmo à luz do século XXI. “Folheio e torno a folhear estas tristes memórias e pergunto-me incessantemente se foi, então, no brilho daquele retomo Estio, que começou o angustiante da minha vida. Ou o meu desejo excessivo por aquela criança terá sido apenas o primeiro sintoma de uma singularidade inerente?”.

Não viso absolver Humbert das suas violações morais. Não viso simpatizar com a sua opressão. Não viso envolvê-lo em complacência cega. Todavia, não posso deixar de avultar aquilo que são as hercúleas diligências por ele empreendidas, com vista a ocultar ímpetos a ele impostos por uma entidade sobrenatural sádica e maligna; “Anos de secreto sofrimento tinham-me munido de um autodomínio sobre-humano.”. Numa tentativa de fuga de si próprio, Humbert adota (ainda quando residia na Europa), inclusivamente, o matrimónio, na esperança de que o liberte do labirinto em que sobrevive enclausurado: “[…] pouco depois, para minha própria segurança, resolvi casar. Pensei que um horário regular, comida caseira, todas as convenções do casamento, a rotina profilática das suas atividades de alcova e – quem sabe? – o importante desabrochar de certos valores morais, de certos substitutos morais, me poderiam ajudar, se não a libertar-me dos meus degradantes e perigosos desejos, pelo menos a descontrolá-los pacificamente.”

As consequências dos sórdidos ataques de Humbert não tardam em manifestar-se na sua abandonada ninfita. Obstinado pela satisfação de um iminente amor, calculosamente olvida-se das vontades e necessidades próprias da jovem, a quem tudo foi privado e tolhido. Citando, “Preferi sempre a higiene mental da não interferência. […], tinha por hábito e método ignorar o estado de espírito de Lolita e confortar a minha própria vil pessoa. […] tornara-se gradualmente evidente à minha convencional Lolita, durante a nossa singular e bestial coabitação, que até a mais miserável das vidas familiares era melhor do que a paródia de incesto que, no fim de contas, era também o melhor que eu podia oferecer à desamparada criança.”. Revestida em vestes de intangível e inútil amor paternal, enclausurada num caixão de frustração e mágoa – assim é sepultada a infância de Lolita, na podridão da infâme terra.

Concluindo, Humbert e Lolita estão condenados, por diferentes entidades, a uma vida na penumbra, na marginalidade. As suas investidas de libertação são vãs e ilusórias – a chave para o labirinto da putrefação foi, também ela, há muito enterrada na podridão da terra.

Podes consultar um pequeno excerto da Segunda Parte, Capítulo 29, no fim do artigo.

Boas leituras!

Mariana M. Martins

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