Reportagem - 2020, o ano em que o mundo parou

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By France Médias Monde and RFI Brasil. Discovered by Player FM and our community — copyright is owned by the publisher, not Player FM, and audio is streamed directly from their servers. Hit the Subscribe button to track updates in Player FM, or paste the feed URL into other podcast apps.
Reza a tradição iorubá que quando Xangô ergue seu machado de duas pontas em direção ao céu, o raio que o toca se transforma na tradução mais potente da ira divina. Justiceiro, Xangô regeu 2020 no sincretismo afro-brasileiro. E que outra imagem poderia sintetizar um ano que confrontou os homens com a possibilidade de sua própria extinção? A distopia mora ali na esquina, e o mundo amanheceu incrédulo com esse réquiem, causado por uma minúscula proteína com nome de desenho animado: Spike, o coração do novo coronavírus. Se 2021 espera seu deus, que ele tenha nome de vacina. 2020 trouxe também consigo a insuspeitada derrocada de imperadores loiros e bilionários e fez renascer, no coração da maior potência mundial, o punho erguido dos Panteras Negras pelas mãos de George Floyd e de toda uma geração do grande levante antirracista do #BlackLivesMatter. Seja nas ruas, nas quadras ou gramados, o punho cerrado e o joelho no chão ecoaram um silêncio estridente, num gesto que se tornou o grito dos silenciados, dos invisíveis, dos discriminados. George Floyd, Jacob Blake, Breonna Taylor, João Alberto. Seja nas ruas de Minneapolis ou no almoxarifado de um Carrefour em Porto Alegre, a violência racista parece não mais ser tolerada como antigamente. Que o digam as estátuas herdadas do passado colonial, desmontadas nos Estados Unidos pelo movimento #BlackLivesMatter, mas também em vários países europeus como a Bélgica, França ou o Reino Unido. Símbolos derrubados, manchados, depostos. Sem sombra de dúvida, 2020 foi um ano iconoclasta. Já na Casa mais Branca do planeta, a "diplomacia do Twitter", como ficou conhecida a maneira de Donald Trump governar, não garantiu no grito a reeleição do magnata. O silêncio dos invisíveis calou mais fundo nos Estados Unidos: negros e mulheres votaram em massa no democrata temporão Joe Biden, e defenestraram o atual ocupante da Casa Branca. E de nada adiantaram os sucessivos tuítes clamando uma "eleição roubada". A plataforma bloqueou a raiva descontrolada de Trump e expulsou do Twitter seu ex-conselheiro estratégico, Steve Bannon, que pedia nada menos que a "decapitação" do "Mr.Covid", o médico Anthony Fauci, especialista em doenças infecciosas, que ousou contradizer o presidente norte-americano em sua gestão da pandemia. A mesma gestão que minou sua popularidade até em sua base eleitoral. Um vírus microscópico em uma cidade longínqua Mas isso foi em novembro. Não passemos "o carro na frente dos bois". Afinal, quem diria, caro leitor, que, onde quer que estivéssemos, ao erguermos nossa taça ou latinha de cerveja na virada do 1° dia de janeiro de 2020, um vírus microscópico, numa cidade longínqua da província chinesa de Hubei, fosse virar nossa vida do avesso, destronar o presidente do país mais rico do mundo e colocar o planeta em quarentena? Um vírus cujo potencial letal foi descoberto em 2002 e que assustava as autoridades desde 2013. Nem a ficção científica daria conta de sintetizar a profusão de imagens impressionantes que assistimos nos últimos meses. Nesse meio tempo, o processo de Harvey Weinstein tem início em Nova York [ele seria condenado em março a 23 anos de prisão], Harry e Meghan deixam a realeza britânica ("Megxit"), o Reino Unido se despede da União Europeia (Brexit), e o mundo celebra os 75 anos da libertação do campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia. E, de repente, Wuhan se tornou o epicentro de um tsunami silencioso, cujas consequências o mundo ainda estavam longe de conhecer, em fevereiro de 2020. Hoje, dois lockdowns depois [e temendo o terceiro], aprendemos que não existe "ondinha" e que o SARS-Cov 2 é um vírus pernicioso que ataca, com alta letalidade, os mais velhos e os mais frágeis, provocando reações descontroladas ou desconhecidas do sistema imunitário. Assistimos à dor de milhões de famílias enlutadas pelo mundo, que não puderam se despedir de seus parentes. Descobrimos a existência de animais exóticos como o pangolim e hoje sabemos elencar, sem titubear, nomes complicados como Síndrome de Kawasaki, Síndrome respiratória aguda grave (SARS), mutação, assintomáticos, R(t), RNA, pandemia. Nossa noção de tempo também foi amplamente alterada. Nessa nova "Matrix", o Carnaval brasileiro ficou para junho, e o Reveillon francês foi literalmente cancelado. Se podemos, ficamos em casa e passamos o tempo numa sucessão de lives e séries, entre um videocall com os chefes e uma tele-aula das crianças. Se não podemos, corremos diariamente o risco de ser contaminados em transportes públicos lotados. É que o novo coronavírus se revelou também um espelho da desigualdade no meio da pandemia. Desigualdade que já era curiosamente retratada no filme “O Parasita”, do diretor sul-coreano Bong Joon Ho, vencedor do Oscar de 2020. No Brasil, as escolas de samba realizam um desfile engajado politicamente, sem saber que nada mais seria como antes. Mas no dia 15 de março, a notícia cai como uma bomba na maior parte do planeta: o vírus é real, altamente contaminante e é preciso ficar dentro de casa. Negacionistas do mundo unidos Segundo as teorias da psicologia comportamental, a negação seria uma das etapas do luto. No caso dos negacionistas e conspiracionistas, no entanto, a motivação parece ir além. Em 2020, o mundo descobriu incrédulo o Qanon, movimento conspiracionista norte-americano de extrema direita que apoia sem restrições o presidente Donald Trump, segundo eles um herói de uma batalha contra grupos satânicos. Na França, Alemanha, Canadá e Reino Unido, o chamado "movimento antimáscara" conquistou multidões em agosto de 2020. O argumento? "Leis desproporcionais" em uma "ditadura da saúde", em plena pandemia que já havia deixado mais de 1 milhão de mortos. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro parecia não se importar com suas então mais de 100 mil vítimas da Covid-19. Um efeito-rebote da euforia das férias de verão no Hemisfério Norte? Até hoje os negacionistas intrigam especialistas em todo o planeta, seja negando o vírus, seja desprezando as vacinas. Em julho, Vladimir Putin se torna o novo "czar" da Rússia, celebrando um referendo constitucional que o autoriza a ficar no poder até 2036. Mas em agosto, o fogo do machado de Xangô parece descer de novo sobre o mundo: uma série de gigantescas explosões atinge o porto de Beirute, no Líbano. O país, massacrado pela crise política e pela pandemia, tem grandes dificuldades para enfrentar a tragédia. No Brasil, o fogo comeu solto em incêndios criminosos ou espontâneos na Amazônia e no Pantanal, onde, acuados entre as chamas e a agricultura, os animais não tinham para onde fugir. Apesar dos negacionistas, as mudanças climáticas continuam dando o tom da destruição pelo mundo: incêndios corroem 100 hectares de floresta na França , matam coalas na Austrália e o calor intensifica incêndios na Califórnia. Na Grécia, o campo de refugiados de Moria é consumido pelas chamas. Nas paradisíacas Ilhas Maurício, o naufrágio do cargueiro Wakashio derrama nada menos que 200 toneladas de diesel e 3.800 toneladas de óleo combustível no Oceano Índico, devastando a fauna e o ecossistema marítimo. Que Iemanjá possa domar a fúria da ira de Olorun. Revoltas e reviravoltas do mundo As redes sociais, brasileiras e mundiais, explodem em memes sobre 2020, o ano que parece durar para sempre. Entre confinamentos e crises políticas, econômicas e sociais, o planeta se pergunta quando terá fim a sucessão de problemas. Não sabíamos ainda que 2020, matreiro, guardava ases na manga para o grand finale. Em setembro, a reeleição do presidente Alexander Lukashenko deflagra a crise em Belarus: a eleição é polêmica devido às suspeitas de fraude eleitoral e, a partir de então, enormes protestos ocorrem regularmente em Minsk e nas cidades do interior. Na Rússia, o envenenamento do opositor Alexey Navalny recupera um daqueles improváveis climas da época da Guerra Fria. Hospitalizado com urgência após perder a consciência em um vôo de Tomsk para Moscou, ele receberá asilo na Alemanha de Angela Merkel. Uma Merkel que, se parecia preparar seu adeus ao Bundestag, se torna um elemento crucial na gestão da pandemia em seu país, e o peso de sua persona política continua garantindo o sono de uma Alemanha que revive o pesadelo da extrema direita. Para a chanceler alemã, a despedida foi definitivamente adiada em 2020. Em setembro, após vários meses de tensões crescentes, tem início o longo conflito em Nagorno-Karabakh, que trará uma violência que só terá fim meses depois, quando Azerbaijão e Armênia assinam um acordo sob as bençãos de Moscou. O Nobel premia as químicas Emmanuelle Charpentier e a norte-americana Jennifer Doudna, além da poeta norte-americana Louise Glück, após um período de crimes sexuais e escândalos na Academia de Estocolmo: as vozes do #MeToo ainda ecoam potentes no mundo. Na Nova Zelândia, a musa Jacinda Ardern, do Partido Trabalhista, vence com folga as eleições legislativas e consegue maioria absoluta no Congresso. Nada mal para a premiê que ficaria famosa no mundo inteiro pela sua gestão da crise sanitária. No balanço das horas, como bom malabarista, o mundo parece dar dois passos para frente, e dois para trás. O retrocesso político na Polônia faz com que a Corte Constitucional de Varsóvia proíba a interrupção da gravidez até em casos de mulheres gestantes de fetos sofrendo de malformações, mesmo "graves e irreversíveis". No lado de baixo do Equador, uma maré verde de mulheres e homens celebra nas ruas da Argentina a possobilidade da legalização do aborto. Na Hungria de Viktor Orbán, o Parlamento aprova medidas contra os direitos LGBTQIA+. No Chile, uma participação histórica em um referendo popular derruba a Constituição herdada da ditadura de Pinochet e abre novos caminhos para o país. Roda mundo, roda pião, diz o verso do cantor. Fantasma do terrorismo na França e a corrida pela vacina O ano estranho termina com notas tristes na França e na Europa, onde uma onda de ataques terroristas traz à tona traumas perenes de um passado não tão longínquo. A retomada do julgamento do atentado à redação do Charlie Hebdo abriu feridas não cicatrizadas, e o país descobre assustado a notícia da decapitação de um professor do Ensino Médio, na pequena Conflans-Saint-Honorine. Seu “pecado”: mostrar caricaturas do profeta Maomé em uma aula sobre a liberdade de expressão. Além da decapitação do professor francês Samuel Paty, em 2020 a França foi palco de diversos ataques terroristas, como a nova tentativa de agressão na antiga sede do Charlie Hebdo, e o ataque com faca em Nice, que matou uma brasileira. Em Viena, um atentado deixou pelo menos dois mortos e vários feridos. Em novembro, os acusados dos atentados de 2015 na França são condenados a penas de quatro anos à prisão perpétua. Nesse ano que vai terminar, também perdemos a elegância “noir” da eterna musa de Saint-Germain-des-Prés, Juliette Gréco, ícone da chanson française. Little Richard tirou seu rebolado de cena. Foi-se também o charme de Michel Piccoli, Kirk Douglas e Sean Connery, o eterno James Bond. Foi-se Chadwick Boseman, o “Pantera Negra”. Toni Marshall nos deixou, assim como o traço de Uderzo, a letra de Sepúlveda, a nota de Ennio Morricone. No Brasil nos despedimos do brilho de Aldir Blanc, Jorge Salomão, Antônio Bivar, Zé do Caixão, Chica Xavier, Flavio Migliaccio, Moraes Moreira, Leonardo Villar, Nicete Bruno, e tantos outros. Para coroar este ano de tantas perdas, a Argentina [e o mundo] parou para dar adeus ao mago dos gramados, rei dos dribles, o pibe de oro, Diego Maradona, o eterno camisa 10 azul-celeste. Terminamos o ano procurando uma espécie de paz. Até os britânicos resolveram abrir mão de suas disputas infindáveis sobre a pesca e abriram um espaço sem precedentes para que, finalmente, nos 45 do segundo tempo, um acordo fosse encontrado para o Brexit. Estamos exaustos. Nossos heróis, os agentes de saúde na linha de frente, lutam contra o stress e o cansaço todos os dias para salvar vidas. Na corrida pela vacina, temos um só desejo: que ela vença, tenha o nome que tiver, seja em Hubei, em Quixeramobim, na Groelândia ou na África do Sul. Como uma fênix, o Brasil olha para 2021 esperando renascer das lágrimas derramadas pelos seus quase 200 mil mortos pela Covid-19, no meio de um caos político, econômico e social. No céu de dezembro, uma Estrela de Belém é formada pela raríssima conjunção de Júpiter e Saturno. Alguns acreditam que seja o começo de uma nova era. Kaô Kabecilê, Xangô. Que 2021 nos seja suave, e traga um rasgo de esperança.

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