Fonoaudiologia ajuda transgêneros a adaptar voz a novo corpo

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Quando falamos em transição de transgêneros, pensamos principalmente em uma série de mudanças físicas e indumentárias, mas um aspecto super importante, que vai se revelar como um elemento-chave na nova personalidade, geralmente é relegado a segundo plano: a voz. Para as pessoas transgênero FtM (female to male, ou seja, a mulher que se transforma em homem), o tratamento hormonal e a ingestão de testosterona já provocam naturalmente uma certa mudança do timbre. Mas este não é o caso das MtF (male to female, ou seja, homens que se tornam mulheres). Assim, a feminização da voz passa por uma mudança de timbre - que nos homens vem do peito, e nas mulheres, vem da cabeça, da caixa craniana, com uma ressonância mais aguda. Conclusão: terminada a transição, a mulher trans ainda tem a voz masculina, o que, psicologicamente, é muito ruim e impacta na sua vida e integração social. Sendo a cirurgia das cordas vocais o último recurso, é a fonoaudiologia que vai oferecer à transgênero a possibilidade de ter uma voz que corresponda à sua nova condição de mulher. Simon Wajntraub é diretor do Instituto de Oratória e Fonoaudiologia do Rio de Janeiro e atende muitas pessoas que fizeram a transição para mulher e querem afinar a voz. O especialista explica a frustração que elas sentem quando chegam ao seu consultório: "O problema é que ficam frustradas porque os médicos prometem que as vão transformar numa mulher e não acontece isso na voz.Tomam hormônio feminino, a voz continua grave, algumas tentam operar e acabam prejudicando a corda vocal porque perde o agudo, e na hora que vou tentar mudar a voz, não conseguem mais fazer o agudo", relata. O trabalho do fonoaudiólogo é intenso e ele conjuga a voz e a emoção, colocando também seus pacientes em situações da vida real para que suas reações vocais correspondam a elas, naturalmente. "Na primeira etapa eu as coloco individualmente comigo,e depois vão para a aula de oratória em grupo, e o grupo é muito forte, tem argumentação sob pressão, verbal, e eu as coloco nestas situação sob pressão para automatizarem essa nova maneira de falar", observa Simon Wajntraub. "Bonjour, madame!": a frase mágica para os transgêneros mulheres A fonoaudióloga francesa Juliette Riff é uma autoridade na feminização da voz de transgêneros. Ela nos conta qual é a principal queixa da classe, que também será a referência para se saber que o tratamento chegou ao fim: o telefone! "O contato é puramente vocal, não existe a sugestão da imagem de quem está do outro lado. Nossa bússola para saber se uma pessoa pode parar ou não a educação vocal é quando a paciente diz "Tudo bem, agora me chamam de senhora ao telefone"! Neste momento sabemos que o trabalho foi feito, que a voz está instalada, este é o nosso objetivo". Juliette Riff também explica que o trabalho de transformação de voz requer uma força de vontade draconiana, um esforço fora do comum: "Todo o trabalho se passa no sentido inverso da fisiologia natural. Vamos pedir à laringe que faça esforços que não está acostumada a fazer. Será preciso dar referências, em termos de sensação, à mulher que está surgindo". A fonoaudióloga também nos conta que ainda existe muito preconceito no seu meio, e nem todos os profissionais aceitam transgêneros como clientes. Em busca da voz ideal A experiência vem demonstrando que a fonoaudiologia é a melhor escolha para transgêneros se adaptarem à nova vida, como confirma esta paciente de Simon Wajntraub: "Aconselho treinar sempre a voz com a ajuda de um fonoaudiólogo, procurar não fazer cirurgia nas cordas vocais porque é perigoso e pode atrapalhar, é perigoso perder a voz e é um dinheiro que vai ser jogado fora.Antes você procurar um fonoaudiólogo e se esforçar bastante para aprender a falar fino com a ajuda de um professor", diz a transgênero. Apesar de todo esse contexto de adaptação, nem sempre uma mulher transgênero sente necessidade de mudar sua voz, como é o caso de Isa Momora, que tem um canal muito visitado no youtube. Ela postou um vídeo comentando o timbre de sua voz em relação ao seu visual bem feminino, e mesmo se sua voz não é grossa, ela a considera masculina, e assume. "Hoje em dia minha voz é mais grave, eu não tenho problema nenhum com isso. Talvez algum dia eu queira mudar minha voz, ou talvez eu nunca vá sentir a necessidade de mudar minha voz porque, afinal, ela faz parte do meu corpo e eu gosto do meu corpo do jeito que é", conclui a blogueira.

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